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A Oração Dominical

A Oração Dominical

(Por Paul Sédir, 1871-1926)

Esta instrução complementa de modo sublime o que vimos AQUI, AQUI e AQUI.

 

A Oração Dominical é em suma uma oração para a paz, para a harmonia, para a unidade. O discípulo que a pronuncia com a intenção de algum sofredor roga que a paz venha sobre este homem, sobre seu corpo, sobre seu coração, sobre seu pensamento, sobre seu destino. E a paz desce conforme aquele que suplica, pelo costume de sua vida corrente, se torna um com Aquele à sombra de quem ele implora e de quem o último legado a Seus primeiros servidores foi a paz.

Nada que o Nosso Senhor Jesus Cristo pensou, fez ou disse vem de outro lugar que não o Céu; é por isto que Ele é filosoficamente incompreensível; o mental não pode mesmo vislumbrar esta infusão do Absoluto no relativo nem esta efusão do relativo em direção ao Absoluto, cuja dupla curva é a vida do Salvador; é a realização do impossível, a materialização do invisível, a existência do inconcebível.

Assim, a oração modelo que Ele deu a Seus discípulos, que não é senão a expressão das necessidades do Universo; é também a expressão daquilo que o Pai julga útil à nossa bem-aventurança pessoal como a bem-aventurança da Natureza inteira. É a imagem do movimento cósmico; da qual ela indica os componentes, os pontos de partida, as metas, os modos. Ela representa a arma das criaturas na sua ascenção coletiva, e a lei do aperfeiçoamento do composto humano. Ela é, em uma palavra, a imagem da Vida.

É então com justa razão que certos místicos aí descobriram a regra dos êxtases extraordinários da consciência individual e que outros aí encontraram os arcanos da criação do mundo.

O primeiro destes pontos de vista é Santa Teresa quem o desenvolve o mais claramente. Segundo ela, quando a alma reconheceu o Pai que está nos céus pelos métodos do conhecimento humano, pelas operações discursivas do entendimento, ela entra na abnegação (desprendimento, renúncia) e começa a pratica da oração de quietude da qual os dois primeiros pedidos do Pater descrevem as fases. O louvor: Que Vosso Nome seja santificado é, com efeito, um repouso após a fatigante ascese da vida purgativa e da meditação lógica. É a primeira aurora da vida contemplativa. A criatura deu quase todo o seu esforço; o Criador vai iluminar como resposta ao segundo pedido: venha a nós o Vosso Reino. A quietude alcança aqui seu nível; a alegria desce na alma e se comunica, às vezes, até o corpo, que pode então tornar-se o teatro de fenômenos extraordinários.

Mas, provado o primeiro reconforto, começa um novo período de trabalho, do qual o terceiro pedido: que Vossa vontade seja feita coloca os fundamentos para a humildade, para o completo aniquilamento interior da criatura.

A essência deste trabalho é a assimilação da vontade divina pela vontade humana, cuja a vida torna-se pouco a pouco um sacrifício constante (sacrifício = consagração); as dores que este esforço produz são os sinais do novo nascimento, da gênese mística do Verbo em nós. É este o pão cotidiano do qual cada dia nos traz uma migalha; alimento tão forte, tão generoso que a massa das almas não pode suportar. Todos os aborrecimentos, todas as provações, todas as perseguições, todos os sofrimentos imagináveis não são, na realidade, senão os efeitos sobre nosso espírito interior deste remédio divino.

E o quinto pedido, o perdão, deve ser a pedra de toque de todas as virtudes, o sinal de regeneração, a prova objetiva e material de que todas as partes de nosso ser assimilaram o pão místico, o Verbo vivo.

Mas deixemos às almas de elite os mistérios que seus esforços excepcionais descobrem; permaneçamos sobre o solo onde vive a multidão; não nos oferece Ele tudo aquilo que nossa fragilidade pode vencer? Para melhor dizer a Oração Dominical basta representar as palavras como declarando coisas reais e não alegorias ou abstrações vagas. Examinai cada uma destas palavras em toda a extensão de sua propriedade universal, em toda a profundidade de seu sentido humano; uma somente bastaria então para preencher vossas horas de entusiasmo, a vos derramar toda força, a vos iluminar de toda certeza.

Este nome do Pai, o poder, a sabedoria, a bondade que ele evoca, a volta para Ele a quem tudo deveria nos reconduzir; este reino sobre o mundo e sobre nós, e sobre todas as partes de um e de outro, este governo efetivo, atual, constante, primeiramente paternal, em seguida real; esta vontade, o Cristo mesmo, que nós desejamos ver se realizar, incorporar-se em tudo, no universo, em tudo na nossa pessoa; este pão, fonte e soma de todos os alimentos imagináveis, dentro de todas as variedades das substâncias da Natureza; estas ofensas cometidas ou sofridas, reino desesperador do mal contra o qual é preciso esperar; estas tentações excelentes a nos fazer atletas espirituais, nós e todas as criaturas; este mal, enfim, que nos encanta e que nós não compreendemos que é preciso afrontar, e do qual só o Pai nos liberta, que motivos imensos para refletir, para admirar, para adorar! Eis o necessário, se não os contemplamos com simplicidade, ao largo de sentidos hieroglíficos, de transcrições eruditas e de rituais.

As manchas obscuras que são nossa lei não são menos árduas que os impulsos do misticismo especulativo; elas o são talvez ainda mais. O Pai dá a quem Ele quer e o que Ele quer. Tal é sublime agora quem pode tornar-se imbecil em uma hora. É preferível então considerar o esforço imediato e concentrar no presente nossas energias.

Eis algumas explicações úteis para, no estado atual de nossos conhecimentos, compreender a Oração Dominical e fazê-la o melhor possível, do fundo do coração, nos unindo Àquele que no-la ensinou (transmitiu).

1 – Pai Nosso. A ideia de socorro que nasce no coração do homem deve crescer e subir logicamente, até ao Ser Todo Poderoso por excelência. Quando o Cristo nomeia Deus: o Pai, este é para nos fazer sentir Sua infinita solicitude. O Deus do Evangelho não é o Jehovah vingativo dos israelitas, nem o Parabrahm indiferente e impassível dos Vedas. O amor que Ele tem por nós O torna inquieto (preocupado) de nosso destino, afligido de nossos erros, feliz com nossas alegrias saudáveis. Se nós tivéssemos os olhos abertos, nós seríamos confundidos ao espetáculo de todos os seres e de todas as forças que este Deus coloca em ação para nos dar a vida, para no-la conservar e para no-la aumentar (fazê-la crescer). Bem longe de castigar, Ele espreita os mínimos movimentos de arrependimento para lançar-Se diante do filho pródigo, lhe estende a mão e o reconforta. Nada vem à nossa existência, não tomamos um pedaço de pão, não tocamos uma pedra, sem que o Pai o tenha previsto e o tenha julgado bom, o tenha permitido. Tudo isto vós sabeis, mas não é ruim que vós ouviríeis dizer, porque, frequentemente, não ousamos seguir as consequências lógicas de uma intuição espiritual; a natureza em nós nos assombra e treme diante das clarezas divinas. Assim escutai a voz quase imperceptível do Amigo que fala tudo ao centro do coração e, quando O tiverdes ouvido, Lhe obedeceis contra tudo e todos.

2 – Que estais nos céus. O céu do Evangelho não é um paraíso como os céus de descanso das antigas religiões; os paraísos são apenas planos de existência mais ou menos superiores à terra e sobre a maioria dos quais o espírito do homem se repousa e recupera forças para uma descida ulterior a um inferno qualquer. Todo lugar de existência é paraíso para uns, purgatório para outros, segundo os méritos anteriores. Entre estes "jardins de delícia”, a beleza, a inteligência, o esplendor se desabrocham com milhões de vezes mais de abundância que neste mundo. Mas, bem que a felicidade que se pode desfrutar nestas esferas radiantes seja tão inimaginável para nós outros como as grandezas astronômicas comparadas às medidas terrestres, a gente permanece somente um tempo limitado nestes mundos. Enquanto que, o Absoluto, o Céu, o Reino de Deus nos oferece uma morada eterna.

O Pai reside aquém de Sua criação, na imutabilidade de Sua permanência. Ele está em toda parte, mesmo no Reino da Morte; Ele está na terra e em todos os mundos, desde que Jesus desceu.

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