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NOTAS SOBRE O SENTIDO DO NATAL

NOTAS SOBRE O SENTIDO DO NATAL

A adoração dos pastores (Jusepe Ribera)

Por Marielle-Frédérique Turpaud
 

Esta noite iremos, uma vez mais, refletir sobre a festa de Natal. O trabalho repetitivo não deve nos surpreender, já que passamos boa parte da nossa vida iniciática relembrando nossa Iniciação e encontrando sempre novas riquezas nessas leituras.

Portanto, além dos perus, dos patês, dos chocolates, realizemos o Natal.

Natal é, inicialmente, a noite. Como foi à noite que os hebreus fugiram do Egito. Da mesma forma foi também de noite que o Salvador desceu sobre a Terra: noite de liberdade...

Natal é a errância de uma família estrangeira no país, vinda da Galileia e que deve encontrar com urgência um ninho para abrigar a criança que vai nascer.

Natal é a gruta, o esconderijo no flanco da montanha que domina Belém e as colinas de pastagens. A imagem da gruta não está no Evangelho, mas se encontra nos primeiros comentários dos Pais, que conheciam esses recantos habitualmente utilizados pelos pastores do lugar. Para nós, é a comovente visão da luz oculta de Deus no primeiro tabernáculo, deitado na palha do primeiro sacrário, do primeiro ostensório.

Porque Belém quer dizer "a casa do pão". Isto significa que Jesus é o "pão de Deus, o pão que desce do céu e dá vida ao mundo" (João, 6, 33), e dá ao mundo para que aquele que o come não morra, mas entre na vida eterna, a Grande e Perfeita Reintegração no Coração de Deus. Eis porque Jesus Menino está deitado em uma manjedoura: porque seu destino é deixar-se devorar pelo Amor.

Mas, me diriam vocês, a manjedoura está destinada ao boi que lá se encontrava, conforme sugerido por piedosos autores, e como nosso irmão São Francisco o representou no primeiro presépio de Natal. Correto. Mas, existe muita diferença entre a sonolência pesada desse bravo animal, cujo horizonte não vai muito além de trabalhar-dormir-forragem, e nossa própria inércia diante das grandezas divinas?

Asaph constata:

"Eu ignorava, não entendia,
como um animal qualquer.
Mas estarei sempre convosco,
Porque vós me tomastes pela mão.
Vossos desígnios me conduzirão.
E, por fim, na glória me acolhereis."

(Salmo 73)

Isaías chega a considerar o animal mais inteligente do que o homem: "porque o boi conhece o seu dono, e o homem não conhece seu Deus" (Isaías, 1, 3). O boi é o objeto de solicitude: deixa-se que ele paste o trigo que pisa (Deut 25, 4; citado em 1 Cro 9, 9 e em 1 Tim 5, 18) e mesmo aos sábados desata-se sua correia para levá-lo a beber (Lucas, 13, 15), apesar de atar ou desatar uma corda ser um trabalho estritamente proibido.

Enfim, se nos lembrarmos que "boi" em hebraico é ALEPH, compreender-se-á melhor seu lugar capital no Templo, sustentando o Mar de Bronze (1 Reis 7, 25) onde, aparecendo como o quarto elemento do Todo, na visão de Ezequiel (Ez. 1, 10), do Apocalipse (4, 6-8) e até em nosso Tarô, na lâmina do Mundo, ao redor do Cristo ressuscitado - onde ele é atribuído por Santo Irineu de Lyon ao evangelista São Lucas, porque seu Evangelho começa no Templo. Seu lugar no presépio não é, pois, sentimental: ele é o Aleph, o primeiro adepto, aquele que vê primeiro e que compreende antes do homem.

Por falar em hebraico, a palavra "Galileia" significa "o círculo". Maria e José teriam que "sair do círculo" para chegar na cidade do rei Davi, a "casa do pão". Como "saímos do círculo" na marcha cega da Iniciação, para caminhar rumo à verdade.

Caminhar para Jesus, como os pastores - e por amor, como Ele veio em um corpo de bebê por amor a nós. No oco da montanha da "Casa do Pão'' está oculto o Cálice, seu retiro secreto, como está escrito:

"Ele introduziu-me na Casa do Vinho,
e o estandarte que Ele ergue sobre mim é o amor!"

(Cântico 2, 4)

Mas, para atingir esse retiro secreto é necessário sair de si, "sair do círculo", como o fizeram os pastores e, de mais longe, os Magos e, ao mesmo tempo, penetrar no mais recôndito de seu próprio coração, sob a montanha, onde Ele está aninhado, dormindo, esperando ser despertado por nossa amorosa vigilância para refulgir em plena força e glória em toda a infinidade da sua luz.

Esta amorosa vigilância é a de Maria, meditando em seu coração; é a de José, velando sobre a família; é a dos pastores maravilhados, acreditando na mensagem do anjo; é a dos magos, caminhando longamente por terras desconhecidas; e é aquela, tão simples e direta, do boi, habituado aos duros trabalhos de tração que, com seu sopro, aconchega ternamente o Menino Jesus adormecido em seu feno.

Possamos nós, nesse período natalino onde tantas barreiras tenebrosas foram abatidas, velar sobre a frágil luz da liberdade que é anunciada ao mundo, e que reconhecemos neste signo: um bebê enfaixado e deitado numa manjedoura.

Esta matéria foi publicada originalmente na versão brasileira da revista L'Initiation, n° 1, em 1991

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