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Discriminação e Aceitação

Discriminação e Aceitação

Por Thoth, 3º Patriarca Expectante, no início dos anos 2000

O dia decorria ameno. A brisa salitrada haurida com prazer impregnava todo o meu ser. Sentado num tronco de um velho cajueiro, contemplava a beleza exuberante daquela praia nordestina que me encantava com sua natureza agreste. Sua orla coberta por brisas floridas produzia um visual agradabilíssimo. As ondas do mar azul se quebravam, espraiando-se e fundindo-se com a areia num conúbio amoroso, coroado de brancas espumas. Ao longe, algumas velas pontilhavam no horizonte prenunciando o retorno dos jangadeiros.

Estava me deleitando com aquela tranquilidade tão oportuna que se me apresentava, quando fui abordado por um senhor de aspecto agradável, bem-apessoado, de cor negra, que me saudou cortesmente dizendo:
—Bom dia, senhor! O tempo está lindo, não é?
—Bom dia, lhe redargui acrescentando: Realmente, além de o dia estar ótimo, o recanto desta praia tem um visual encantador, trazendo uma paz benéfica e restauradora. O senhor é morador aqui do vilarejo? Mas, por favor, se assente aqui no tronco.
—Não, senhor, estou aproveitando as férias do colégio para fugir um pouco da metrópole e descansar da luta que se trava no dia-a-dia...  Disse, acomodando-se.
 —Colégio? Quer dizer que o senhor trabalha na escola?
—Sim, exerço o magistério, leciono Cultura Universal. Com essa matéria tenho a oportunidade de falar sobre todos os povos, todas as raças...

Notei um misto de tristeza e amargura na sua voz. Me fiz de desentendido e deixei que ele prosseguisse. Depois de um breve silêncio, continuou: Como dizia, sou professor de Cultura Universal. Mesmo me achando um bom profissional, luto com certa dificuldade em ser bem aceito pela maioria dos alunos...

Por quê? (Eu fiz tal pergunta para demonstrar não ter sentido a causa e a fim de dar-lhe a oportunidade para externá-la à vontade).

—Acho que o senhor é bastante sutil. Mesmo assim, agradeço a chance que me é concedida. A razão é óbvia: tudo é proveniente à minha cor. Lamentavelmente, DISCRIMINAÇÃO RACIAL é um fato contundente, que não se pode negar de forma alguma.

Os negros são considerados uma raça inferior, e isto sempre nos foi inoculado através dos tempos. É o “tendão de Aquiles” que fere fundo cada um. Embora queiramos ou não, isto está sempre dentro de nós. Às vezes, até por fatos de somenos importância que foram proporcionados sem segundas intenções, nos sentimos feridos, melindrados. Um olhar persistente sobre nós e já achamos ser irreverência. Enfim, é necessário ter uma aceitação quase sobre-humana para viver com normalidade. Chego mesmo a pensar que, se há aquilo que se chama reencarnação, ser negro, a meu ver, seria o maior castigo para se resgatar uma vida pregressa cheia de Orgulho e Vaidade! Só quem é, sabe o quanto somos discriminados em todos os setores na vida material. O senhor vai dizer que existem muitos fatores que mostram não haver discriminação, pois há muitos negros ocupando posições de destaque social. Sim, realmente há, porém, será que estes mesmos destacados não têm ocultamente seus recalques? Suas desditas? Seus momentos de revolta interna? São interrogativas que, para serem respondidas, só o próprio indivíduo honesto consigo mesmo poderá, em sã consciência, respondê-las a si mesmo, porque, aos outros, não teria coragem de confessar suas fraquezas.

O senhor, que soube me ouvir com paciência, espero que também possa me perdoar se disse algo incoerente, porém, externei o que tenho no recôndito do meu coração. Eu mesmo ocupo uma posição de relevo, pois tenho a oportunidade de conduzir, ensinar numerosas criaturas. No entanto, sei que muitos me toleram, mas não me aceitam, mantêm suas reservas, suas restrições, aprendem as lições por uma necessidade, por um dever, mas não como uma aceitação irrestrita à minha pessoa. Mesmo sendo discípulos, alunos, me olham com certa superioridade, quiçá, com certo desdém.

Eu sei quem o senhor é. Encontrá-lo aqui não foi mera coincidência, porque o procurava por ter necessidade de conversar com o senhor, sabendo que se trata de um Sacerdote, e o meu propósito é confidenciar minha tormenta e ouvir algumas palavras esclarecedoras e amenizantes, se eu as merecer!...
Olhei com amorosa simpatia para aquela criatura que, apesar de ter uma aparência agradável, com um porte até de acentuada personalidade, estava naquele momento conturbada pelos seus anelos sentimentais, os quais demonstravam sua absoluta falta de conformismo. Isso era realmente muito perturbador.
Procurei relaxar, entrando num estado de receptividade de Forças Superiores. Após algum tempo, sorridente, lhe disse:

Meu amigo, a sua sinceridade, sua transparência, me deixaram encantado. Razão pela qual vou procurar satisfazer, dentro do possível, seus desejos, lhe dando aquilo que veio buscar. Todavia, devo adverti-lo para conter sua suscetibilidade, porque irá ouvir, talvez, coisas que irão de encontro a sua maneira de ser.
Eu sei e entendo o seu problema. Estou até de acordo com o seu SENTIR. No entanto, devo lhe lembrar que, em qualquer situação, as regras têm suas exceções. Porém, você — me permita que o trate assim — colocou as coisas dentro de um parâmetro profundamente situado na sua maneira de ser. Tudo isso que você falou teve o efeito de demonstrar a sua própria revolta. Entretanto, a DISCRIMINAÇÃO não existe só com referência à questão RACIAL, embora ela seja muito chocante. Eu sei, e como sei, o que é ser apontado como negro. Posso até mesmo medir os complexos formados em cada um, seus sentimentos de revolta e indignação, ou a extensão de humildade de que se revestem muitos.

Porém, lhe digo: Em todas as Raças existem os bons e os maus. Achar que o negro é uma raça inferior é uma opinião sua, porque cada um responde por si, pois o pensamento e a maneira de ser são livres. Para a Criação, não há e nem pode haver distinção de cor, de Raça, ricos ou pobres, reis ou plebeus. Todos são iguais, todos foram procriados da mesma forma, todos terão o mesmo fim, a MORTE. Portanto, não existem diferenças perante a Criação. As diferenças tão decantadas, tão berrantes, são produzidas pelo “status” social, pelo poder econômico e financeiro. Eis porque existem milhares de pessoas de todas as Raças ocupando posições de destaque social em todas as regiões do mundo. Logo, fica caracterizado que a causa é exclusivamente SOCIAL, ressaltando naturalmente aquilo que a pessoa tem, o que ela sabe e por onde conseguiu se projetar na escalada da vida material. Onde está a cor, a Raça? Saiba que existem DISCRIMINAÇÕES em todas as outras Raças. Exemplo: Os pretensos Arianos jamais suportaram os Judeus!... E muitos outros casos análogos poderiam ser citados.

Realmente, você teve um pensamento interessante, achar que seria, de acordo com sua compreensão, um castigo para aquele que foi um grande ORGULHOSO e VAIDOSO, um DISCRIMINADOR racial, ter que reencarnar num corpo negro e ainda por cima mulher! Mas a discriminação poderia se dar em qualquer RAÇA.
Em se tratando do assunto reencarnação, convém você, como professor, procurar se enfronhar, estudar, entender e conhecer o magno problema da reencarnação, pois é matéria de suma importância e abrange uma vastíssima área de soluções para todas as problemáticas. E isso pode ser feito sem necessidade de ser inserido em qualquer religião, filosofia etc., evitando assim ferir conceitos, preconceitos e concepções pessoais.

Agora vamos analisar um pouco outros setores onde existem também vários tipos de discriminações.

Você já se deu ao trabalho de analisar aquilo que se chama machismo? A terrível discriminação criada há milhares e milhares de anos através dos agrupamentos, povos, nações, formada pelos códigos das civilizações e padrões sociais? Que escravizam até hoje as mulheres em todos os setores, independentemente das RAÇAS existentes? Pois bem, é uma discriminação ainda pior que a que é dirigida aos negros. No entanto, não é tão sentida por ter uma aceitação generalizada. O machismo goza de quase completa e absoluta concordância por parte da sociedade, em seu “modus vivendi”. Se os negros não se rebelassem contra o que passam por serem negros e procurassem sobrepujar as dificuldades, adquirindo posições, olhando os brancos, amarelos ou vermelhos com igualdade, se se conscientizassem de sua cor e soubessem que podem ser também “superiores”, enquanto RAÇA, eliminariam grande parte da atribuída inferioridade aceita por eles mesmos.
Existe uma abjeta DISCRIMINAÇÃO entre os miseráveis, pobres e remediados. Ricos e milionários, independentemente de qualquer RAÇA, existem no mundo inteiro sem que se pergunte a que RAÇAS pertencem.

Enfim, querido amigo, todos nós sofremos discriminações, e o antídoto é saber-se valioso e ter — ACEITAÇÃO — sem jamais se rebelar contra coisa alguma. E para sua melhor compreensão, existem discriminações até entre as próprias religiões, filosofias, crenças etc. Não preciso argumentar mais, pois você é muito perspicaz.
E aquele senhor que antes havia se aproximado trazendo consigo amargura, agora se despedia e se retirava altaneiro!...

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