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Androgonia

Androgonia

Papus

Ensinamentos de Jehel S:: I:: (que mais tarde passaria a assinar Sri Sevãnanda Swami, 2º Patriarca da Igreja Expectante) - OUTUBRO/1943

Este ponto do Programa de Estudos do Primeiro Grau Martinista, ou seja, a constituição do ser humano – que chamarei homem para abreviar, mas sem excluir ao seu complemento – a mulher – tem sido sempre tratado POR SER O PONTO FUNDAMENTAL DA TEORIA COMO DA PRÁTICA.

Mas, ao tratar dele, certas escolas têm se contentado com muito pouco, outras têm feito tal ampliação de termos que, ao ter que se lembrar de tanta terminologia e teoria, o estudante perde de vista o essencial que é: compreender, para aplicar, verificando em si mesmo que essa constituição tem uma razão de ser e uma finalidade.

Ao expor a composição do ser humano, seguirei constantemente os ensinamentos dados pelo Venerável PAPUS, o Mestre da Claridade. Veremos de passagem o que dizem as outras escolas, não porque tragam alguma nova luz, mas para que nossos estudantes possam entender a terminologia de todas as tradições, orientais e ocidentais.

Constituição humana segundo os Antigos
(PAPUS)

A respeito da constituição humana, devo, antes de tudo, revisar a Tradição, já que esse problema interessou aos seres dos séculos passados. Vamos ver, então, como os Antigos o teriam resolvido. Pois bem, eles simplesmente expressaram a solução por meio de um símbolo que todos conhecem: a esfinge.

A esfinge era a síntese antiga mais nítida, mediante a qual se pode representar as diversas adaptações do ser humano, em todos os planos. Efetivamente, o homem nos apresenta forças físicas, simbolizadas pelo boi; forças morais – coragem, virtude, “Virtus” em Latim – simbolizadas pelo leão; forças intelectuais, simbolizadas pelo águia; finalmente, uma força de essência divina – a qual, concentrando as forças físicas precedentes, faz delas uma unidade.

Os antigos haviam assim concebido três espécies de homens: o homem de trabalho, homem completamente físico, o “homem boi”; o homem corajoso, o homem que se bate ou que luta, o “homem-leão"; o homem que nunca está sobre a Terra, que sonha ou que passeia nas nuvens, aquele que faz o desespero dos notáveis comerciantes que se ocupam de armazéns, quando o têm como filho: o poeta, o “homem intelectual” simbolizado pela águia.

Mas, essas três naturezas – natureza linfática do boi, sanguínea do leão e nervosa da águia – não são absolutamente nada mais que seres animais dentro de nós e, se a vontade não interferisse para dirigi-los e dominá-los, o homem não existiria realmente e não seria uma “tríplice unidade”, isto é: uma unidade dominando a um ternário.

O que desejo fazê-los notar desde já, nesta admirável síntese antiga que era a esfinge, é que há três inconscientes dominados por um consciente.

Sabemos como os sábios de hoje estão contentes por terem descoberto um inconsciente. O que seria se soubessem que há três?!... Pois bem. Os antigos Egípcios haviam representado a síntese humana muito melhor do que fizeram nossos filósofos ou os sábios modernos, ao mostrar-nos TRÊS inconscientes constituindo ao homem e regidos por uma consciência total que os sintetiza.

Se Édipo respondera à esfinge que o interrogava: “Tu és o homem?”, sem dar mais detalhes, ele não teria mostrado as maravilhosas adaptações deste símbolo.

A esfinge representa não apenas o homem em seus quatro aspectos, mas também as quatro idades do homem: infância, juventude, meia-idade e velhice; e representa as quatro forças morais que o homem pode ter à sua disposição e que estão sintetizadas em quatro termos: saber, ousar, querer e calar; representa, finalmente, os quatro pontos cardeais que regem o homem astral, que determinaram a marcha das estrelas dos Magos e que se tornaram a chave de todas as Tradições.

Quando nos dizem que a esfinge é um símbolo antiquado, que não apresenta maior interesse para nós “modernos”, não nos esqueçamos de que a Tradição é sagrada e que, assim como um povo ufano de sua independência é feliz por religar-se por uma tradição a um povo anterior, assim também toda tradição é feliz em religar-se por um meio invisível a outra tradição anterior. Recordemos a encantadora fábula que representa a Virgem Maria e seu esposo fugindo para o deserto com o Menino Jesus e dormindo entre as patas da Esfinge.

Pois bem, isso nos mostra nitidamente que a antiga tradição egípcia termina na religião de Cristo. Por isso se tem representado cada um dos quatro Evangelistas por um animal da Esfinge: Mateus, pelo boi; Marcos, pelo leão; Lucas, pelo homem; e João, pela águia.

Cada Evangelho, assim adaptado a cada um dos quatro temperamentos humanos, manifesta um dos potenciais que o homem pode desenvolver.

Tão maravilhosa é esta síntese que presidia a constituição da ideologia antiga. Porém... você dirá: ficamos assim até agora no domínio da imaginação ou das ideias e não devemos esquecer que estamos em um século de positivismo. Em uma palavra, você quer saber como está constituído o ser humano e não como o haviam concebido os Antigos. Sejamos, pois, positivos e estudemos as coisas materialmente.


Até agora citei PAPUS. Mas quero, no entanto, oferecer à sua meditação um rápido comentário do que o texto dele nos legou como “Chave da Esfinge Humana”. O comentário é meu, não culpe o Mestre por sua imperfeição.
 

A ESFINGE NORMAL

Fisicamente saudável, forte, trabalhador e manso, eu trabalho como um boi e meu físico suporta com poderosa base todas as minhas outras possibilidades.

Astralmente dinâmico, às vezes minhas paixões rugem como feroz besta, porém outras vezes luto como um animal nobre por uma causa que acredito ser justa ou grande. Meus Sentimentos e minhas sensações são poderosos, posso ser cruel, mas posso ser heroico.

Intelectualmente capaz, tento ver, recordar, compreender e aplicar o que faço como boi e o que sinto, odeio ou amo como leão. Minha razão pode guiar meus atos e por isso tenho ousado me chamar de “ser racional”.

Há momentos – em que pese a corrente que me ata ao leão, por sentimentos e paixões – que lanço mão do melhor disso mesmo, a possibilidade de me sentir águia e de voar até regiões mais amplas, mais puras, e essa recordação jamais é completamente apagada ao regressar delas, que visito em imaginação ou em sonhos.
 

A ESFINGE “INVOLUÍDA”

Fiz usos indevidos e sujos de meu corpo. Nasci boi, sou quase um porco.

Só cultivei o que era egoísmo, crueldade e ódio. De leão, me tornei um javali. Prostituí a possibilidade criadora humana, repudiei minha real condição; fiz-me macaco, pela imitação, pela inútil agitação, pela mente retrocedida. Por que fazer esforço para voar e trazer do alto palavras reveladas que me deixariam com saudade da mansão celestial? Aqui embaixo também me ouvem se grito, minto e me exibo, como um lindo papagaio. Assim pensei, assim sou agora.

 

A ESFINGE “EVOLUÍDA”

Corcel humano, aspirante a Pegasus, meu corpo se alegra ao trabalhar e, como um puro sangue, aspira à meta, procura sua própria superação física.

Meu coração e alma, fiéis e agradecidos, como o melhor cachorro, têm aprendido o prazer de servir, de cuidar dos outros, de amar o MESTRE.

Homem pela compreensão, Mulher pelo sentir, começo a descobrir o anjo caído outrora “dentro de mim mesmo” e invisíveis asas sustentam minha elevação paciente.

Esta doce pomba que acaricia minha mente na meditação, na oração ou no êxtase. É o Espírito Santo ou é meu espírito santificando-se?

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