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Procedimento Incônscio Capítulo XXX do Livro Escalada Espiritual Um vento sul, gélido, cortante, que parecia penetrar os ossos, me fustigava. O termômetro marcava 12 graus. Isso, junto à chuva fina constante, ativava cada vez mais a sensação de um frio desagradável, pois, sem o vento, o frio seria mais tolerável. E, quanto mais se aproximava o entardecer, o sentir do frio aumentava. Ainda bem que já me encontrava no saguão da entrada principal da casa onde ia passar aquela noite, que prometia uma temperatura ainda mais baixa! Tudo dependia do fator tempo para uma permanência de mais dias. Ao entrar na casa dei um suspiro de alívio quando senti a reanimadora temperatura proporcionada por uma lareira cujas chamas foram como colírio para meus olhos. O caseiro, ao me ver chegar, veio lépido ao meu encontro, prontificando-se a tirar dos meus ombros o úmido sobretudo e, à guisa de cumprimento, disse: "Que tempo terrível, e frio incomodativo... O senhor está bem, Patriarca Thoth?! - Sim, amigo Flávio; mas tudo que ocorre tem uma razão de ser, porque a mãe Natura provê a seu filho na terra o que é necessário naquele momento. Portanto, é de bom alvitre aceitarmos tudo sem reclamações exacerbadas, mesmo por que foge da nossa compreensão o que é certo ou errado na ocorrência do fato, naquele instante. Logo é bom aceitar os fatos sem revoltas. Porque no certo e no errado há dissidências na sua maneira de interpretação, pois o que é certo num lugar, noutro pode ser errado... Ele se fez de desentendido, como se transmitisse sua pouca aceitação, e perguntou: "O senhor não gostaria de tomar um bom caldo quente para aquecer o estômago? Ou prefere esperar o patrão senhor Mário, que dentro em pouco virá fazer o lanche da noite?" Ah! Se ele ainda não lanchou, prefiro aguardá-lo. Nesse ínterim irei gozar um pouco do calor da lareira. Escolhi uma poltrona bem confortável e procurei acomodar-me da melhor forma possível. Fechei os olhos para locupletar-me de um merecido descanso. Dentro de pouco tempo fui chamado à realidade pela voz do inolvidável amigo Mário. - Oi, Thoth! Me desculpe pelo fato de não estar presente quando chegou, mas estava fazendo os exercícios do primeiro grau de Sacerdote. Agora estou pronto para atendê-lo e ouvi-lo, e é disso que realmente tanto necessito. Mário é um amigo de longa data que agora se tomou um Expectante e também um Noviço, depois de muitas buscas. Agora achou por bem seguir os ensinamentos da Igreja. Razão pela qual eu estava hospedado em sua casa. Depois de um lauto lanche, fui conduzido à biblioteca, onde iríamos nos deleitar em profundas divagações filosóficas. A bem da verdade, eu desejava com certa curiosidade pelo que estava próximo a acontecer. Depois de nos acomodarmos e ficarmos quietos o tempo necessário, Mário pediu licença e rompeu o silêncio dizendo: - Meu velho amigo e Patriarca Thoth: - Eu sei o quanto o senhor tem passado através da luta que trava em sua Missão. Por incrível que pareça, é exatamente isso que me levou a tomar a decisão de ser um Expectante, quiçá um Sacerdote da Igreja Expectante. O exemplo da sua abnegação, a entrega e integração com a Obra, a obstinada perseverança que tem sido aplicada com denodo em sua missão serviram-me como um “abre-te Sésamo”, demonstrando-me como devemos nos dedicar à Obra a que nos propomos, seja qual for... O que mais me emocionou foi saber e VER como o senhor sofre quando vê aqueles a quem dedica amor e carinho caírem do pedestal e lançarem-se por caminhos opostos aos que receberam, indicados com tanta atenção, dedicação, com horas perdidas de sono, preces, súplicas aos Mestres para dar-lhes a possibilidade de evoluírem espiritualmente! É por vê-lo empregar toda a sua dedicação que declino o meu sincero apreço pela sua atitude e passei a querer ser seu discípulo! Meu querido Thoth, de antemão te digo que minha formação moral não me permite ser e ter um procedimento incônscio, ou seja, um procedimento inconsciente e irresponsável. Escutei cheio de emoção a exposição de seu ponto de vista, a qual penetrou no fundo do meu coração e, por que não dizer, furtivas lágrimas afloraram aos meus olhos. Disfarçadamente, procurei transmitir algumas explicações dizendo-lhe: - Meu querido, espero que suas palavras tenham vindo emanadas do Eu Superior, porque assim são de boa cepa, da qual a frutificação não será ácida. Especialmente se houver como adubo o amor. Não o amor originário do plano material, mas o AMOR preconizado por Cristo - o Amor Cósmico. Devemos estar conscientes de que o ser humano tem na sua formação duas Forças: o Bem e o Mal, ou seja, o POSITIVO e o NEGATIVO. Sendo assim, estamos sujeitos a receber as vibrações de ambos. E cada criatura tem seu potencial desenvolvido tanto para um lado como para o outro. E eu acho que neste contexto o próprio ser ignora a totalidade do seu potencial, pois estamos aptos a agir de forma imprevisível em certos momentos, tanto de um modo como de outro. Por isso, pode-se aplicar aqui o que diz Mateus, 22:14 - "Muitos são os chamados, mas poucos os escolhidos". Vou desdobrar para melhor entendimento: Digamos que todos têm chance de ser chamados. E esse chamado se dá na hora em que o indivíduo está com pensamentos elevados, ou seja, quando seu Eu Superior está mais atuante do que o Eu Inferior. São esses pequenos vislumbres de altruísmo que sentimos às vezes em nossas vidas. Neste estado, ele parte acelerado em busca de um ideal para sua evolução sem ter o respaldo do alicerce da Força de Vontade atuante, sem vencer o Orgulho, a Vaidade e carregando como sobrepeso o Egoísmo. Cheio de desejo, não tem escrúpulo, é inconsciente, sem medir responsabilidade ao encontrar urna oportunidade que acena abrindo-lhe as portas. Sem mais delongas, filia-se prestando até juramentos... Mas, com o decorrer do tempo, aquele calor arrefece, diminui seu desejo. Aí vem o desânimo, a preguiça, que são as "cascas de bananas", os elementos necessários para ativar a negligência. Resultado: Como todo "Fogo de palha", depois das altas labaredas tudo fica reduzido a cinzas. Aí, meu caro, ele terá que aguardar nova chance e, se puder ser igual à Fênix, lutar para ressurgir das próprias cinzas. Muito bem, Patriarca, disse Mário, o senhor me SITUOU num posicionamento no qual devo pautar cada vez mais minha posição e disposição para a longa jornada no caminho da espiritualidade. O que foi exposto abriu mais minha mente, me firmando num desejo ainda maior para o prosseguimento dos meus estudos. Espero que no decorrer do tempo eu possa demonstrar a minha firmeza no exercício das minhas responsabilidades e minha lealdade aos Mestres e à Obra.
Ótimo,
meu caro Mário. Se me permite, irei lhe pedir para descansar. E num
abraço fraterno nos demos boa noite.
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